quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Meus Trabalhos


Olá,

Eu me chamo Alexandre Henrique.
Falo com vocês através da escrita e das palavras da minha irmã mais velha.
Talvez vocês não conseguissem me entender bem, se eu mesmo ousasse a contar-lhes a minha própria história de vida da minha maneira... que é sem dúvida, uma maneira... como dizer... hum... talvez incomum.
O porque que a minha irmã mais velha está escrevendo por mim?
Bem... apesar de eu ser alfabetizado, saber escrever o meu nome, eu não me comunico da mesma forma que os surdos-mudos e nem tão pouco como a dos autistas propriamente dito, justamente porque sou os dois ao mesmo tempo.
Complicado, né...

Porém, mais complicado ainda foi a vida que dei aos meus pais... nossa, como eles tiveram trabalho em me criar!

Minha instrução devo principalmente a minha irmã mais nova, Heloisa, que há muito tempo atras, criou uma forma de ensino muito peculiar e inovadora, coisa que naquele tempo não havia qualquer recurso desta magnitude que pudesse atender exatamente ao meu caso.
Isso se deu a mais ou menos trinta e poucos anos atras!

Bem, não pretendo contar aqui, toda a minha história vida de uma só vez, mas aos poucos e com detalhes, isso é, se ainda consigo me lembrar.

Quero, no entanto, apenas fazer uma introduçãozinha, com o objetivo de deixar registrado a minha forma de comunicação para com o meu mundo e para com o mundo de todos vocês. Assim, espero evoluirmos juntos nesta relação comunicativa que é mais sensorial que verbal e muito mais intuitiva que subjetiva.

Os meus desenhos são as minhas palavras.

As minhas pinturas são os meus pensamentos.

E os meus trabalhos criativos são as minhas expressões verbais para com o mundo concreto ao meu redor.

Adoro as tintas! Amo as esferográficas! Com elas posso fazer uma reta ou um círculo sem mesmo utilizar qualquer instrumento apropriado para isso.
Eu até já usei do "Paint Brush", do computador da minha irmã mais velha pra fazer alguns desenhos que normalmente faço com as canetas e que estão nas folhas dos meus muitos cadernos.

Vejam!!!!














Tenho aprendido muitas coisas.
Uma delas e que caminhar faz muito bem para mim. Caminho ao redor da lagoa perto da minha casa. Ela é um dos cartões postais da cidade onde nasci e onde moro até hoje.
Quem caminha sempre comigo e o meu irmão mais velho, o Luizinho, que nos últimos 4 anos vem sendo um companheiro sempre presente e um amigo inigualável.




Hoje 24 de Nov de 2011:

Mostro-lhes abaixo algumas das minhas criações. São, na verdade, peças que encontro em lugares que adoro visitar, tais como serralherias, desmanches, casas de materiais de construção, até mesmos coisas que encontro pelas ruas...


Este foi um trabalho feito com a tampa de um tambor. Primeiro eu retirei a tampa do tambor com a ajuda de uma faca e um martelo. Depois fiz os três orifícios longos, pois os dois redondos já faziam parte do tambor. A pintura foi feita depois que trabalhei nas bordas dos três orifícios para evitar que as pessoas se ferissem ao manusear a peca. Este acabamento foi feito a marteladas mesmo.





Estes dois trabalhos foram feitos com couro cru. O meu vizinho, o Milton, ele tem uma fábrica de sapatos. Ja trabalhei para ele quando era mais jovem, na adolescência. Ele me pagava por cada caixa de sapatos que eu montava. Adoro ir na fábrica do Milton. Sempre que vou na casa dele, ganho um montão de coisas boas para eu criar à vontade. Este é resto de couro que ele usa para fazer os solados dos sapatos e das sandálias. 







Esta fruteira também é de couro cru. Eu a fiz com muito carinho e capricho. Me deu muito trabalho. Eu a fiz pensando em minha querida mamãe, Margarida. Dei de presente para ela no dia do seu aniversario de 87 anos de idade. 




Antes, quando o meu pai ainda era vivo, ele me levava para escola. Esta escola era considerada uma escola modelo, muito boa para crianças que tinham o mesmo problema que eu. Ficava no bairro da Serra. Poucas vezes a minha irmã mais velha também me levava. Mas o meu pai e a minha mãe revesavam para me levar.
Eu era considerado uma criança inquieta... impulsiva... elétrica.
As professoras eram consideradas muito eficientes e muito bem preparadas. Psicólogas, pedagogas, enfim pessoas altamente treinadas, estudadas e cheia de diplomas.
Numa manhã por fim, minha mãe apareceu lá comigo a tira-colo, muito nervosa e brava querendo explicações... o porquê que meu corpo estava com hematomas de beliscões, e galos na cabeça...
Minha mãe descobriu que elas não tinham o mínimo de preparo necessário para lidar com pessoas como eu... aliás ninguém ali tinha. E olhe, que a escola custava os olhos da cara!
No dia anterior eu havia sido agredido fortemente na cabeça e, no corpo muitas marcas de beliscões. Tudo porque havia subido no Pé de Jabuticaba para pegar algumas frutas e comê-las ali mesmo, e jogar outras muitas tantas para os meus amiguinhos que estavam la embaixo, no pé da árvore...
Sem dúvida alguma essa foi a gota d´água! Continuar ali era impossível.
Retornei para casa com a minha mãe.

Depois de algum tempo fui matriculado em uma outra escola. Esta era uma escola do governo. La estudavam vários tipos de crianças e adolescentes com vários tipos de problemas físicos e mentais. Ali aprendi a caminhar mancando, ou com o corpo retorcido... essa era a minha forma de ver o outro: imitá-lo.
Com isso fui acusado de estar debochando da deficiência deles. Mas como eu poderia comunicar com eles se não escutava, não falava, e ainda por causa do autismo eu ficava mais afastado que reunido com os outros colegas...
Muitas foram as vezes que a minha mãe participou do habitual "Encontro de Pais e Mestres". Mestres?
Nestas ocasiões minha mãe escutava horrores durante as reuniões. Tentava ajudar não só para o meu aprendizado, como também para os demais colegas. Todos nós necessitávamos de mais atenção, dedicação, e não de brutalidades e palavras ofensivas tais como: você e mesmo um retardado! Oh maluco! Seu peste!
Até que numa dessas famosas reuniões onde nada resolviam, minha mãe resolveu falar, citando nomes, apontando erros e desmentindo fatos quando uma das professoras, irritadíssima levantou e disse " qualquer dia eu deixo seu filho morrer afogado na piscina", e minha mãe retrucou "deixa... deixa para você ver o que vai te acontecer, sua desclassificada".
Esta foi a última reunião que minha mãe frequentou e meu último dia de escola.





Hoje, 29 de Novembro de 2011

Hoje eu lembrei que ajudei o meu irmão mais velho a montar um presépio no natal de alguns anos atrás. O legal foi que eu insisti em utilizar todas as minhas criações, desde os garrafões pintados aos tubos de papelão que vêm junto com papéis higiênicos que também pintei.
Fizemos também uma bela árvore de natal com estrutura de cabo de aço toda ela envolvida por material reciclável em sua maioria garrafas de refrigerantes da cor verde e transparente.
Tudo ficou tão lindo que ate a TV MINAS esteve lá, para nos filmar e nos entrevistar. Coisas da minha cunhadinha Consola, casada com o meu irmão Caio, pais do meu sobrinho João Luiz.
Tenho fotos do presépio e também da árvore, mas em filme... prometo pedir ao meu cunhado Nicolau passar tudo para o computador... assim prometo incluí-las no blog.

Tudo que exite, grande parte desse tudo, e que ninguém valoriza, eu valorizo, e muito!
Talvez quem me lê no momento não acredita que "exagero". Na verdade eu exagero sim. E gosto de exagerar.
Mas para dizer a verdade eu nem mesmo compreendo bem essa palavra: E-X -A-G-E-R-A-R.
Mas se não houver outra palavra para se colocar no lugar desta vai essa mesmo. Portanto o que eu quero deixar claro é que eu sou o que sou. Ponto. Então, a palavra certa na minha concepção é G-O-S-T-A-R. Sendo assim eu gosto dos tubos de papelão, das tiras de couro de sola de sapatos, das tintas, dos pinceis, das latarias em geral, dos tambores, das ferraduras, da panelinhas de ferro, das panelinhas de cobre (muito caras por sinal), de andar de carro, de sair pelas ruas e pegar as argolinhas das latinhas de cerveja e refrigerantes que encontro jogadas no chão (sei que ninguém deveria jogá-las no chão porque e falta de educação, mas eu tiro também proveito disso, isso é, sempre quando o meu irmão mais velho me deixar pegá-las). Posso ficar aqui mil horas seguidas dizendo do tudo que gosto de fazer e ter, que ainda não seria suficiente para eu contar tudo aquilo que gosto. Por isso vamos as fotos que falam mais por si.


Este meu desenho eu fiz considerando uma peça de ferro fundido que consegui num desses lugares especializados em coisas usadas. Vocês podem adivinhar do que se trata, e qual é o significado desta marca?


Olha aqui a resposta.




A marca Singer da máquina de costura antiga, aquela que vinha com o gabinete barrigudo onde a máquina ficava guardada. Ele vinha com duas gavetas nas laterais e uma comprida entre elas para armazenar linhas, carretilhas, tesouras, etc.

Não posso deixar de lembrar da minha querida mãezinha, até altas horas da noite costurando para ajudar nas despesas da casa. Ela usou por longos anos uma máquina de costura parecida com a da Singer. A dela era uma Brother.
Eu gosto também do pedal destas máquinas. Inclusive, quando quero me expressar sobre uma máquina de costura, mesmo as atuais portáteis eu ergo as mãos para frente da minha cintura e ao mesmo tempo em que as estico pra frente eu vou batendo as pontas dos pés no chão repetidas vezes, como se eu estivesse levando o tecido pela agulha da máquina e fazendo a costura rolar com os batidos dos pés no chão. É uma maneira que criamos para eu dizer "máquina de costura".
Para minha felicidade, todos me entendem muito bem.


Algumas das panelinhas de ferro e cobre, ferraduras e esporas. Este ai e o meu cantinho onde fico horas e horas trabalhando.



Alguns dos garrafões que pinto. Quando enjoo das cores e dos desenhos eu os pinto de novo dando uma nova cara a eles.




Latas velhas que pinto e faço diferentes adornos. Um deles foi o presépio que mencionei acima. Não precisa me cobrar... já já vocês verão as fotos do presépio...
  











2 comentários:

  1. Uauuuuu... tá ficando um show o seu blog Alexandre!! estou amando poder conhecer um pouco mais da sua linda história!
    estou anciosa para mais postagens!!
    A propósito, tomando uma brecha por aqui....
    heheh.... TE AMOOOO MEU TIO!!!

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  2. Que lindo Alê! Vc e Jack sabe que sou apaixonada por vc e pelas coisas lindas que vc proporciona artesanalmente para nossos olhares curiosos. Eu Erica sua amiga e sua família amamos vc! Beijos beijos

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